Retirato do Malvadezas
Pré nota da editora (linda): Não, este texto não é meu. É do futuro Malvadeza-novato @robgordon_sp. Mas né? Hoje é dia do orgulho nerd e o texto é excelente. Tô publicando mesmo sem ele ter fotinho, oU sequer uma conta no wordpress. Então é isso. Comentem e ele responde, visitem o blog dele e me amem mais, por esse impulso inconseqüente de publicar um texto criticando os nerds de butique. Queremos de volta o nerd de várzea, o nerd pé no chão, o nerd-arte, o nerd moleque. DIA 23 DE JUNHO TEM FESTA. JÁ DECIDIU COM QUAL MALVADEZA VOCÊ VAI QUERER BEBER?
Dizem por aí que hoje é o Dia do Orgulho Nerd. A data escolhida, 25 de maio, diz respeito à pré-estréia do filme Guerra nas Estrelas (que atualmente conta o pomposo título de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança), que figura entre a lista de obras obrigatórias de qualquer nerd do planeta. Há quem diga que hoje também é o Dia da Toalha, numa referência ao Guia do Mochileiro das Galáxias, livro do inglês Douglas Adams que ainda permanece como a maior sátira de todos os tempos sobre o mundo da ficção cientifica.
Realmente, acredito que Guerra nas Estrelas e O Guia do Mochileiro das Galáxias merecem ser reverenciados até hoje.
Eu disse “até hoje”, e não “a partir de hoje”. Hora de fazer algumas contas. Guerra nas Estrelas é de 1977. O Guia do Mochileiro das Galáxias foi publicado em 1979. Já o Dia do Orgulho Nerd, nasceu na Espanha, em… 2006. Quase trinta anos após o surgimento de cada obra. Trinta anos. É tempo demais. E isso não aconteceu porque estas obras sumiram no tempo e foram redescobertas recentemente, mas sim porque filmes de ficção e fantasia, normalmente associados ao público nerd, sempre foram “cultura de gueto”. Eram os “filmes de navinha”, que minha prima falava.
Agora, tudo isso virou pop e começou a ganhar o grande público. Os novos Star Wars, O Senhor dos Anéis, Matrix e as adaptações cinematográficas baseadas em super-heróis arrastaram multidões aos cinemas. Livros esquecidos há anos, como As Crônicas de Nárnia e O Senhor dos Anéis se tornaram best sellers. Quadrinhos e mangás explodiram de vendas.
O mundo, enfim, se tornou nerd. Ótimo. Quanto mais pessoas assistirem a um filme ou comprarem uma HQ, mais continuações e novas edições surgirão por aí. E a coisa vira um ciclo. Mercadologicamente, é ótimo. Culturalmente, porém, este fenômeno nerd se mostra cada vez mais vazio.
Porque hoje a moda não é “ser nerd”. A moda é “querer ser nerd”.
Acredite se quiser, hoje, ser nerd é cool. Vamos colocar as cartas na mesa? Isso é um erro de conceito. Ser nerd, por definição, é “não ser cool”. Se bobear, as palavras “nerd” e “cool” devem até ser consideras antônimas em algum dicionário.
Não é preciso voltar muitos anos no tempo para se lembrar de que o termo “nerd” era totalmente pejorativo. A palavra era usada para descrever, especialmente nos pátios das escolas, não aquela pessoa que entendia muito de um assunto, mas sim o sujeito que, justamente por causa disso, possuía enormes dificuldades de integração, já que não tinha nenhuma aptidão física ou social.
E ninguém gostava de ser chamado de nerd. Era uma das piores ofensas que você poderia receber, já que isso o colocava no degrau mais baixo da cadeia alimentar estudantil. Antes de ser estereotipado como alguém que assiste a Jornada nas Estrelas, o nerd era, basicamente, um solitário. Possuía dois ou três amigos, todos nerds, porque os nerds sempre se encontravam nas escolas e passavam a andar juntos.
Mas, de repente, todos os assuntos nerds explodiram em popularidade. Tecnologia. Computação. Estamos na era da Informação, a Terceira Onda tão citada pelos comunicólogos. Um nerd se torna o homem mais rico do mundo e dispara a frase “seja legal com os nerds, porque existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles”.
Ou seja: tudo se tornou mais fácil para os nerds, econômica e profissionalmente falando. Ou seja, tudo se tornou mais fácil culturalmente para eles. Os nerds haviam saído do gueto – protegendo os olhos do Sol e com medo de descobrir que tudo era uma armadilha e os valentões da escola estarem esperando para cobri-los de porrada.
Não, os valentões não estavam ali. E o Sol nem queimava tanto assim.
O mundo havia se tornado nerd. E, se o mundo é nerd, todo mundo quer ser nerd, claro. Mas quer ser da forma mais fácil que existe. O que importa é ser nerd – ou, melhor ainda, ser visto como um.
Então, o sujeito assiste a um punhado de filmes baseados em quadrinhos, dois ou três seriados de ficção científica, compra meia dúzia de gibis do Batman, um bonequinho do Homem-Aranha para colocar na prateleira e pronto: sai por aí falando que é nerd, e desejando Feliz Dia da Toalha para todo mundo.
Sério, me poupe. Ser nerd envolve muito mais do que os filmes que você gosta, os livros que lê, ter uma conta no Twitter e saber trocar a placa de vídeo do seu computador. Ser nerd é algo absurdamente mais abrangente – e nem sempre agradável – que comprar o DVD de Star Wars ou um boneco do Gandalf.
Mas, como eu disse, a coisa está na moda. E, como toda moda, logo ela fica vazia. Mais ou menos como aconteceu no início dos anos 90, quando o heavy metal explodiu graças ao álbum preto do Metallica. De repente, todo mundo era “metaleiro”, mas, quando você falava de Black Sabbath, a resposta era sempre “é a banda do Ozzy, né?”
Sim, você tem o direito de ouvir o que quiser, ou de assistir o que quiser. Mas a mania de fazer isso apenas porque está na moda – ou, pior ainda, de fazer apenas para se auto-rotular – chega a ser constrangedora.
Aliás, a coisa está num nível que chegamos até mesmo a ver as “meninas que gostam de nerds”. Já tivemos a Maria-Gasolina e a Maria-Chuteira, agora temos a Maria-Equação. São aquelas garotas que suspiram pelos nerds pré-fabricados e bonitinhos de The Big Bang Theory ou Glee, e querem um namorado nerd para poder impressionar as amigas. O nerd é o novo capitão do time de futebol.
Claro que devem existir muitos nerds espalhados por aí. Meninos e meninas que talvez nem sejam mais tão desajustados socialmente porque a internet ajuda bastante a resolver este problema. Mas a grande maioria mesmo é de nerds wannabe, que querem aproveitar a onda e sai desejando feliz #diadatoalha para todo mundo.
E o mercado, claro, já percebeu que estas pessoas dão dinheiro, já que eles precisam mostrar o tempo inteiro qual a sua tribo – independente de não entender direito a tribo em si. E isso gera consumo, claro. Assim, começaram a aparecer séries, quadrinhos e filmes apresentando os nerds de forma bonitinha – ou, ao menos, palatável – e totalmente romantizada.
É o caso de Scott Pilgrim. Nada contra o quadrinho (apesar de eu não ter achado grandes coisas), mas sim ao modo que ele se tornou uma espécie de símbolo disso tudo.
Nos anos 80 os nerds assistiam a Tron, Guerra nas Estrelas e Jornada nas Estrelas por se divertirem com estes temas, que caminhavam ao lado dos assuntos que eles gostavam. Hoje em dia, porém, a coisa se inverteu: o sujeito não lê Scott Pilgrim porque é nerd, ele lê Scott Pilgrim para ser nerd. Ou, ao menos, ser chamado de nerd, que é o que ele precisa. É a mesma coisa que raspar a cabeça para ser punk.
Então, vamos lá. Você é daqueles que está desejando Feliz Dia da Toalha para todo mundo? Você decora os apêndices com as árvores genealógicas de O Senhor dos Anéis ou aprende meia dúzia de palavras em Klingon para impressionar aquela prima do seu amigo que adora The Big Bang Theory?
Sinta-se à vontade e boa sorte. Apenas não se chame de nerd, porque ser nerd não é isso. Desculpe derrubar seu castelinho de cartas, mas você é um cara que gosta de cultura pop, e mais nada. Quer transformar isso numa tribo? Crie outro nome, invente uma palavra, sei lá. Mas deixe o nerd de lado. Porque isso é modinha, e o nerd, por definição, não faz nem ideia do que está na moda.
E você, Maria-Equação, uma dica: não vá atrás do sujeito que você viu no último sábado na balada, dançando com sua camiseta suada escrita “Nerd Pride”. Este sujeito não é nerd. O nerd de verdade está em casa jogando RPG com os amigos, porque ele sequer faz ideia de como se comportar numa balada – mesmo se ele for o Bill Gates. E, mais importante que tudo, o nerd não tem uma camiseta que o identifique como nerd.
Quer entender o que é ser nerd? Assista a primeira meia hora de A Vingança dos Nerds. Está tudo ali. Depois volte aqui e me diga se você realmente quer namorar um deles. Em caso positivo, vá até lá e pergunte se eles não estão precisando de uma paladina. Se ele aceitar, é meio caminho andado.
Apenas não perca tempo desejando feliz Dia da Toalha, porque ele não vai dar a mínima para isso
Link: http://malvadezas.com/2011/05/25/sobre-nerds-e-toalhas/